lunes, mayo 13

Ana Plácido (1857)

« Querida, o teu viver era um letargo, 
Nenhuma aspiração te atormentava; 
Afeita já do jugo ao duro cargo, 
Teu peito nem sequer desafogava. 
Fui eu que te apontei um mundo largo 
De novas sensações; teu peito ansiava 
Ouvindo-me contar entre caricias, 
Do livre e ardente amor tantas delicias!

Não te mentia, não. Sentiste-o, filha, 
Esse amor infinito e imaculado, 
Estrela maga que incessante brilha 
Da alma pura ao casto amor sagrado; 
Afeto nobre que jamais partilha 
O coração de vícios ulcerado. 
Não sentes, nem recordas, já sequer? 
Quem deste amor te despenhou, mulher ?

Eu não! Se muitos crimes me desluzem, 
Se pôde transviar-me o seu encanto, 
Ao menos uma só não me recusem, 
Uma virtude só: amar-te tanto! 
Embora injúrias contra mim se cruzem, 
Cuspindo insultos neste amor tão santo, 
Diz tu quem fui, quem sou, e se é verdade 
O opróbrio aviltador da sociedade ».

Camilo Castelo Branco